Pernambuco em Alta Por Profa. Dra. Polyanna Camêlo

Pernambuco está em alta não somente por fatores que desenvolvem polos tecnológicos, graças ao Porto Digital, ao Estaleiro, etc. No meio cultural, principalmente depois de Chico Science, que nos definiu como Manguetown, nosso Estado vem sendo reconhecido como fomentador de talentos e estilos. E agora, é a vez de nós parodiarmos: Se Deus é Brasileiro, mais que Pernambucano, Cristo é Unibratec!

Enquanto parceiros acadêmicos, conversamos com o aluno Unibratec, de Design Gráfico, Zé Barbosa, no dia em que chegou à Pousada da Paixão, em Nova Jerusalém, muito antes que os demais atores, para se preparar para o papel que tanto o emociona. Zé Barbosa fará o papel de Jesus Cristo na Paixão de Nova Jerusalém, após quase quinze anos em que o espetáculo contava sempre com um ator famoso da televisão brasileira. Para nós que fazemos parte da Unibratec, mais que ter um Cristo pernambucano novamente, e finalmente, temos orgulho em o apresentar enquanto aluno da Unibratec. Afinal, quem não quer dizer «Eu conheço Jesus, ele estuda comigo!»?

                                                                                                A parceria da Unibratec junto à Sociedade Teatral de Fazenda Nova é composta
                                                                                              por projetos de responsabilidade social em acessibilidade, que neste ano contará, pela primeira vez, com trabalhos de inclusão para surdos, contando com intérpretes de libras. Desde o ano passado o espetáculo conta com audiodescrição para os cegos, além da tradicional ação para as pessoas com deficiências físicas, que possui noventa cadeiras de rodas e pessoas capacitadas em as conduzir para áreas preferenciais junto aos cenários. A equipe de apoio às pessoas com deficiência vem sendo treinada pela Unibratec em parceria com a SEAD (Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência), órgão da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos de Pernambuco, para assegurar direitos e criar oportunidades de inclusão social às pessoas com deficiências auditiva, visual, física, intelectual e múltiplas. Por sinal, o tema da ExpoDesign 2012.1 será sobre acessibilidade, e muitos professores estão desenvolvendo trabalhos voltados para a inclusão, não apenas em seu tema específico, mas o ampliando a noções históricas, como por exemplo, da acessibilidade ao conhecimento, como também à arte.

Foi quando a equipe da Unibratec (Silvana Toscano, direção geral; Eduardo Aguiar, direção acadêmica; Aldo Moura, gerência de ensino; Polyanna Camêlo, supervisão de pesquisa do evento) realizava as capacitações em acessibilidade, em Fazenda Nova, que Zé Barbosa chegou, dez dias antes da primeira apresentação ao público, ansioso, mas tranquilo, como quem vai a um retiro. Calmo, sorridente e muito querido por aqueles que já o conhecem, Zé transmite a paz que se espera de alguém num papel tão privilegiado. Nossas perguntas a ele discorreram sobre questões de espiritualidade, a importância do design em sua vida, e dos fatos curiosos e coincidentes que o trazem ao papel de Jesus Cristo no espetáculo a céu aberto que conta com cenários distintos e recebe muitos fiéis, do cristianismo como da arte. Zé nos conduziu aos seus sítios preferidos, contou-nos histórias dos tempos de Plínio Pacheco, e dos bastidores do espetáculo e das pessoas envolvidas com o mesmo.

Além de ator, Zé é designer, artista plástico, percussionista e cantor. Começou cedo com o teatro, ainda em sua terra natal, Limoeiro, no Colégio Regina Coeli, sob os ensinamentos da Irmã Andrea, de quem Zé lembra com muito respeito e admiração, chamando-a de sua primeira grande mestre da vida, do teatro e da espiritualidade lúcida. A escola já contava com um grupo de teatro; entretanto, quando os participantes do mesmo se formaram, a freira resolveu criar um novo grupo, do qual Zé passou a fazer parte a partir dos dez anos. Quando encenou sua primeira peça, sobre a vida de Santo Antônio de Pádua. Daí em diante, atuou em muitas outras histórias cristãs, incluindo encenações da Paixão de Cristo, onde representou ora Judas, ora Herodes, ainda como menino. Sendo assim, o cristianismo está presente na vida de Zé desde sua criação católica, bem como em sua formação escolar. Curiosamente, o colégio foi fundado por nove freiras missionárias alemãs, que vieram para o Brasil e se instalaram em Limoeiro. O que pouca gente sabe, é que a história da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, também tem herança alemã. Já que, a encenação na vila de Fazenda Nova começou em 1951, quando Epaminondas Mendonça, comerciante e líder político da vila, depois de ler sobre a Paixão de Cristo em Oberammergau, cidade alemã, resolveu montar o espetáculo que tinha como cenário as ruas da vila; e como atores, a população da mesma. Estas características amadoras e beatas, são também traços do teatro colonial missionário, que animava e catequetisava a vida nas novas vilas em formação. Sendo assim, o primeiro pepel de Jesus Cristo, em Nova Jerusalém, foi interpretado nas ruas por Luiz Mendonça, filho de Epaminondas e Sebastiana. Luiz também foi o responsável pela escritura do texto da primeira peça, intitulada Drama do Calvário, dirigindo-a em parceria com o radialista da vila, Osíris Caldas.

Em pouco tempo, a partir de 1953, com o sucesso da encenação, e sua repercussão na capital do Estado, a mesma foi se profissionalizando, recebendo de Recife atores profissionais, técnicos especializados e diretores, interessados em trabalhar no espetáculo. Assim, com o passar dos anos, e o crescimento e a profissionalização do espetáculo, um problema surgiu. Seus custos se tornaram elevados para uma peça pública e gratuita encenada nas ruas de Nova Jerusalém. A solução foi encontrada por Plínio Pacheco, cuja estátua sobre o cavalo, com o megafone na mão, gira durante o espetáculo de modo a olhar para cada cena no momento de sua realização. Plínio, casado com Diva Pacheco (filha mais nova de Epaminondas e que ainda vive em Brejo da Madre de Deus), teve a ideia de construir uma cidade-teatro semelhante à antiga Jerusalém e cobrar ingressos.

Plínio Pacheco coordenou o projeto, colaborou na projeção dos cenários, conseguiu financiamentos para compra dos terrenos, e foi presença ativa na construção da grande obra, ajudando inclusive a carregar material, e mantimentos básicos para os operários. Ainda hoje é possível ver os antigos jeeps utilizados por ele para estes trabalhos, por trás dos cenários, onde apenas quem caminha à luz do dia, pelos bastidores, os percebe. Foi Zé quem nos mostrou os veículos, os quais devem compor o acervo histórico do teatro.

A cidade-teatro palco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém ocupa uma área de 70 mil metros quadrados, sendo cercada por uma muralha de pedra de três metros de altura. Conta, atualmente, com nove cenários, e melhorias técnicas a cada novo ano. Vários atores fizeram o papel de Jesus Cristo em Nova Jerusalém ao logo dos anos, e muito antes da parceria com a Rede Globo existir, os papeis principais na mesma eram cobiçados. O envolvimento com o espetáculo sendo sempre tão visceral, fez com que diretores fossem também atores, do mesmo modo como possibilitava aos atores, tornarem-se diretores, ou simultaneamente, ou trocando com o tempo e o avanço da idade, os palcos pela direção. O que indica um fascínio difícil de abandonar por parte daqueles que já fizeram parte da encenação da vida de Jesus Cristo neste espetáculo. Plínio Pacheco elaborou um novo texto para ser encenado na recém construída cidade-teatro. Esse texto, intitulado Jesus, sob a direção de Clênio Wanderley, escrito em dois atos, foi a primeira Paixão de Cristo encenada na cidade-teatro de Nova Jerusalém. Deve ter sido muito ansiado pelo público, já que a apresentação de rua ficou suspensa até a conclusão do novo teatro.

Hoje, depois de quase quinze anos com astros da televisão escalados para os papeis principais, voltamos a ter um ator pernambucano no papel de Cristo. Além de uma atriz conterrânea como Madalena, sob a mesma direção de Carlos Reis e Lúcio Lombardi, que comandam o espetáculo desde 1997, quando a safra da Globo entrou em cena, com Fábio Assunção no papel principal.

E como nosso Zé entrou em cena? Há algum tempo, a necessidade de retornar aos valores católicos que levavam as pessoas ao espetáculo fez Carlos Reis e Lúcio Lombardi procurarem um possível Cristo pernambucano. Além disso, a facilidade logística de atores locais, que pudessem novamente representar o Cristo por vários anos e portanto facilitar os ensaios, já que todos os anos um novo ator precisava se familiarizar com as particularidades do espetáculo, além é claro do texto e da encenação. Assim, encontrar um Cristo pernambucano tornou-se uma quimera.

Enquanto isso, Zé vinha seguindo sua vida como visual merchandising, trabalhando no design de vitrines e exposição de produtos, o que o levou a escolher o curso de Design, e atuando no cenário pernambucano. Foi quando em 2008, representou Jesus no espetáculo da Paixão em Paudalho. Sua atuação o fez chegar aos olhos da dupla Reis e Lombardi, que o convidaram para fazer um teste e passar a ser o stand-in do protagonista em Nova Jerusalém. Assim, desde 2009, quando Jesus foi interpretado por Murilo Rosa, Zé Barbosa participa dos ensaios, sendo responsável por passar as cenas para o ator da globo de cada ano, e se tornando queridos pelos que trabalham nos bastidores da cidade-teatro.

Um ano depois, em 2010, Zé teve a sua chance, quando Eriberto Leão, precisou se ausentar de Nova Jerusalém num dia de público, para receber um prêmio no Domingão do Faustão. Foi a chance que Zé precisava, não se intimidando ao dar o melhor de si. Tanto que emocionou a todos, sendo aplaudido em todas as cenas, e não apenas no começo delas, mas muitas vezes no meio, algo que nunca acontecia nos demais espetáculos. Ao fim da noite, Zé foi levantado pelos companheiros, tendo emocionado a Suzana Vieira, que fazia o papel de Maria, e a todos que o assistiram. Finalmente, o sentido da Paixão havia sido restaurado, por ele, José de nome, tão íntimo do teatro, quanto da via crucis cristã que o acompanhou em vida.

Mas não seria ainda em 2011 que o nosso José se tornaria o Cristo. Thiago Lacerda que fez 33 anos neste ano, desejava ser Cristo pela terceira e última vez, simbólico devido à semelhança de idade, a mesma com a qual Cristo morreu. Assim, apenas agora, temos Zé Barbosa, já lá, antes de todos os outros, meditando, contemplando os cenários, lembrando seu caminho até ali, figurando carinhosamente entre todos que trabalham para fazer deste espetáculo algo que verdadeiramente emocione e traga a todos a experiência de vivenciar um momento tão especial, e cuja finalidade máxima deve sempre se transformar naqueles que vão assistir ao mesmo. Por isso mesmo, Zé sabe da responsabilidade que tem, e além de viver o papel com seriedade e emoção, o faz com humildade e reza silencioso pedindo permissão para representar Jesus Cristo, e assim, tocar o coração das pessoas de modo que não volte como vieram, palavras dele, que nos fazem refletir e respeitar.

Em meio a tudo isso, Zé vem relacionando com facilidade design, teatro e música, não somente ao dizer que «design é tudo» (já que a comunicação, cada vez mais tecnológica e global, gera a necessidade de interfaces que precisam ser elaboradas segundo objetivos, mídia e público específicos), mas sobretudo utilizando o design em seu dia-a-dia, mesmo agora na realização deste seu sonho de atuar como Jesus Cristo na Paixão de Fazenda Nova. Zé usa e vê o design desde o trabalho de marcação gráfica nos textos com os quais trabalha, como também na composição dos cenários e figurinos. Assim, Zé Barbosa, que tentou duas vezes fazer o curso de Administração sem se identificar com o mesmo, encontrou no Curso Superior Tecnológico de Design Gráfico (CSTDG) da Unibratec a paixão e o conhecimento que busca para unificar seus projetos pessoais e profissionais.

Quanto ao espetáculo, atualmente, com cerca de 550 atores e figurantes, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém em Fazenda Nova, é apresentada para cerca de 9 mil espectadores por noite, sendo considerada o maior espetáculo ao ar livre do mundo; tendo a cidade cenográfica de Plínio Pacheco recebido o título de Patrimônio Cultural, Material e Imaterial de Pernambuco, no dia 1o de março de 2009, na lei 13.726. Sendo assim, com a parceria de responsabilidade social junto à Unibratec, a Paixão irá de fato incluir nesse número pessoas com deficiência, que contarão com equipe capacitada para os conduzir à apreciação do espetáculo que move e comove a tantas pessoas desde os tempos das vilas e suas ruas de terra alaranjada cujas pedras do agreste erguiam-se em esculturas naturais a compor cenas junto ao povo que ainda acompanha com seus próprios passos a via sangrenta do Cristo Redentor, Jesus.



FONTES CONSULTADAS (além das histórias contadas por Zé Barbosa em entrevista conferida na Pousada da Paixão, em 19 mar. 2012):

BANDEIRA, Alexandre. Os caminhos da Paixão. Continente Multicultural, Recife, ano 2, n.15, p.33-37, mar. 2002.
GASPAR, Lúcia. Paixão de Cristo, Nova Jerusalém, Pernambuco. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: 20 mar. 2012.
PAIXÃO de Cristo de Nova Jerusalém, Pernambuco. Disponível em: Acesso em: 7 mar. 2007.
REIS, Luís Augusto. Paixão de Cristo: o sonho, o verbo e a pedra. Continente Multicultural, Recife, ano 6, n.64, p.55-58, abr. 2006.
SANTOS, José Batista dos. A Nova Jerusalém. In: _____. Pernambuco histórico, turístico, folclórico.[Recife: s.n.], 1989. p.271-275.

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