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Na Mídia
21.09.2005
Diario de Pernambuco
Economia - (20/09/2005)
Tecnologia abriga baixa renda
A última matéria da série mostra que os centros de educação tecnológica, classificados de elitistas financeira e intelectualmente, estão atraindo população mais carente
Micheline Batista
DA EQUIPE DO DIARIO
Se no Senai e no Senac a excelência dos cursos está atraindo cada vez mais um público diferenciado, de nível intelectual e/ou financeiro mais elevado, na esfera federal o movimento é oposto. Assim como as universidades federais, os centros de educação tecnológica sempre tiveram fama de elitistas por aprovar basicamente alunos egressos de escolas particulares. Um ensino gratuito, de boa qualidade, de difícil acesso às camadas mais baixas da população. Felizmente, esse quadro está mudando.
Selma Maria da Silva, 25 anos, concluiu o Ensino Fundamental e Médio em uma escola pública, no bairro de Tejipió, no Recife. Chegou a prestar vestibular para Educação Física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mas sua média foi muito baixa e não deu para passar. "Meu pai sempre trabalhou na área industrial, então pensei: por que não tentar Mecânica no Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica)?".
A estudante passou um ano se preparando para poder prestar vestibular para o Cefet-PE. "Estudava em casa, pesquisava em biblioteca, ralei muito. Não tinha dinheiro para pagar um cursinho, mas sabia que para ter as coisas eu ia ter que me esforçar", relata. Selma passou e atualmente cursa o terceiro período de Mecânica Industrial, nível técnico. Entretanto, desde o início, ela afirma que se sentiu "um pouco diferente".
"Aqui a maioria dos alunos é filhinho de papai e chega à escola de carro. Eles olham tudo, desde o sapato até a roupa que você está usando. Sofri muito preconceito, mas soube contornar. Só o fato de ter passado já é uma vitória", observa. Uns poucos, conta Selma, a admiram por seu esforço, pois sempre tira boas notas. O curso no Cefet-PE é a esperança de obter uma boa colocação no mercado de trabalho. "O ensino é de alta qualidade. No terceiro período, já estou preparada para fazer estágio", argumenta.
RMR - Muitos dos alunos do Cefet-PE que se enquadram nesse novo perfil vêm de cidades da Região Metropolitana do Recife. Jadson Silva do Nascimento, 25, é aluno do terceiro período de Química Industrial,nível técnico, e reside em Moreno, a 27 quilômetros da capital. Também egresso de escola pública, ficou em 23º lugar no vestibular que oferecia 35 vagas para o seu curso.
"Nunca tive aulas em laboratório na escola do Estado. O que acho interessante aqui é que tudo a gente estuda na prática", depõe. Jadson acredita que os caminhos estão se abrindo para os alunos mais carentes, "tanto é que estou aqui". Ele já se inscreveu no vestibular da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). No ano que vem, quer cursar Licenciatura em Química.
O Cefet-PE oferece 10 cursos técnicos e quatro tecnológicos (nível superior), além do Ensino Médio. "Todos os cursos são gratuitos. A taxa de inscrição para o vestibular custa R$ 25 e alunos carentes ainda podem pleitear isenção", diz a diretora de ensino, Edna Guedes. A concorrência é grande. Em 2004 foram mais de 11 mil feras disputando 1.723 vagas. Nos cursos de nível superior a concorrência chegou a 20,8 candidatos para uma vaga (design). No nível técnico, o maisconcorrido foi o de segurança do trabalho, com 13,7 candidatos por vaga.
Instituições privadas já estão na área
Apesar da excelência e da democratização do ensino profissional público, principalmente a partir de instituições como o Cefet, é cada vez maior o número de instituições privadas a oferecer essa modalidade de educação. O último Censo da Educação Profissional realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 1999, revela a existência de 3.948 instituições, sendo 2.247 privadas (56,92%).
Se for incluído o Sistema S (Senai, Senac), também considerado privado, esse número sobe para 2.656 (67,28%). Em Pernambuco, o censo do Inep aponta para 73 escolas privadas em funcionamento - 94 com as unidades do Sistema S. Uma delas é o Instituto Brasileiro de Tecnologia (Ibratec), instituição voltada para o ensino técnico e tecnológico na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC).
"O Ibratec foi criado para preencher um vácuo existente após o fechamento do Núcleo de Informática da Unicap (Universidade Católica de Pernambuco)", assinala o presidente David Stephen.O Ibratec cresceu e se transformou na Rede Unibratec, com ramificações em João Pessoa (PB) e em Maceió. A mudança de nome veio com a oferta de cursos de nível tecnológico. "A nossa filosofia é empregabilidade, que em algumas turmas chega a 100%", destaca Stephen.
Que o diga Eduardo de Oliveira Santos, que se formou em julho do ano passado em Desenvolvimento de Sotfware, nível técnico. No último período do curso começou a estagiar na Via Tecnologia, empresa incubada no Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep). Foi contratado. "A vantagem do curso técnico é que ele é voltado para as necessidades do mercado", diz Eduardo.
Ele acredita que o ensino técnico, antes pouco valorizado, ganhou importância com a defasagem do currículo dos cursos de graduação. "O mercado quer profissionais que saibam fazer e isso a universidade não oferece", opina. Igor Oliveira, que acabou de entrar no curso de Desenvolvimento de Software, nível tecnológico, acredita que com a formação no Ibratec terá mais chances de disputar uma vaga no mercado de trabalho.
"Aqui não vemos teoria, apenas a prática. O curso é totalmente objetivo", justifica. Para ele, o curso superior tradicional perdeu status, o que imediatamente foi percebido pelas famílias mais abastadas. "Estudantes de classes mais altas perceberam que podem fazer um curso técnico, ingressar no mercado de trabalho e depois, se for o caso, partir para a universidade".
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